10/29/2006

Quando eu parei de gostar de futebol

Eu roubei treze dinheiros da minha falecida avó. Do parentesco eu sabia, não que era falecida. Entrei, abri, peguei. Com os treze dinheiros comprei uma bola de capotão nova. Ou teria comprado. Não se vendem bolas novas (e de capotão) por tão pouco aqui perto de casa. Desci a rua velha correndo, trinquei o queixo pra não me fugir aquele segredo pela boca.
Passou padaria, barbeiro barbado, menino jogando pelada; passou posto de gasolina, casa de pobre, casa de padre, três umbrais sem casa, uma casa grande sem jardim, muitos jardins sem menino.
Quem passava era eu, e o tempo não passava: corria. Correr muito, correr para comprar bola. Depois - de inventar historia, esconder bola, mostrar bola pra uns dois, sujar de barro, cortar a boca, mentir briga (com alguma sorte, arranjar briga) - que se preocupasse quem tivesse bola nova. Bola de capotão.
No pé do morro da antena, Jomael. Soco, soco, chão. Tiro? Jomael foi gastar os meus treze dinheiros.
Deitado, passou o dia, passou o tempo, passou o mundo. Passou minha velha vó, magra e sem treze dinheiros, subindo o Morro da Antena. Tia Mocinha pega o braço e levanta o menino sem vó.
Subindo o Morro da Antena, eu só quero apanhar outra surra.
Fui carregar a vovó. Sozinhos: meu pai, uns outros, Jomael e o homem que fazia bolas e bom preço.
Não começou a chover. O Jomael nunca me devolveu o dinheiro. A Tia Mocinha não se casou. Eu não deixei de sorrir. Saudade? Tiro.

4/21/2006

Gangorra

Baseado em fatos reais, retirados da "Viagem para Iguaba"

Escolhemos a vermelha, não por estética, simplesmente por comodidade, estava mais perto. Pra falar a verdade estávamos presos, escolher não deveria ser uma opção, muito menos por comodidade. Porém os policiais de hoje são muito simpáticos.
Começa, então, o interminável sobe e desce; admito que, depois de um tempo, cansa. Para isso, de vez em quando, vinha alguém pra nos salvar e, por escolha própria, preferíamos ficar presos. Correr cansa ainda mais.
Não posso negar que na gangorra também existe uma grande quantidade de desafios, todos criados por nós pra dificultar uma tarefa tão simples que consiste apenas em seguir as regras da física. As principais dificuldades desenvolvidas são, trocar de gangorra sem tocar nada a não ser ela mesma; tirar os pés do chão quando em movimento, assusta a maioria das pessoas não preparadas; e manter o equilíbrio (sem os pés no chão), sendo isto apenas uma questão de momento, é impossível equilibrar entre subidas e descidas por um longo tempo.
“Vamos sair, já to ficando tonto” E é assim que acaba.
Sair é bem mais complexo que entrar, necessita colaboração do outro para que não se machuque. Já me machuquei nela, não na saída, mas, de qualquer jeito, descobri que a ajuda de outros é fundamental.

Depois fomos jogar Perfil, mas aí é outra história.

3/04/2006

Sim, uma foto


Porque os três também vão à praia.

Os textos desse blog abandonado eu deixo pra eles.

beijo beijo

1/09/2006

Ocaso

Fechando a rodinha de motes-premissas. Eu tentei.
Mote-premissa: Uma estrada sem fim.


Na menor das gavetas da caixinha de música descobri uma crisálida do que deveria ter se tornado a menor e mais bela borboleta do mundo conhecido. Dei a ela um nome de mulher: belas Borboletas foram mulheres em outros mundos; assim como Cães foram servos e Gatos, nobres exilados. Na ânsia de ver Marina, em um desfecho tórrido da minha infância, meu tirano indicador esmagou o que seria o maior de meus encantos. Marina passou a me prender em meus sonhos.
Em minha própria existência.
Quando completei quatorze anos, surgiu uma pequeníssima aranha em meu banheiro. Alimentei Gepa (como são todas as aranhas, Gepa também era dissílaba) por sete meses completos, com sangue. Todas as noites, antes de me deitar, fazia um pequeno orifício no dedo mínimo do pé direito. Não voltei a sonhar. Ou a dormir. O processo de nutrição de Gepa, em vias de fato, não cheguei a compreender. Seria alimentar Gepa me libertar do cárcere eterno dos fantasmas de Marina ou minha nova condição de (não) existência?
Esmaguei Gepa com uma caixa de fósforos.

Na primeira noite do oitavo mês desde Gepa, o primeiro sem sonhos ou sangue, a barata Matilde veio lamber minha boca. Solene. Mínima. Peluda. A mais bela e delicada barata dos encanamentos em minha vida, um corredor de insetos.
Até a mais bela criança abrir esta mínima gaveta de sonho e nos explodir a todos em barulhos secos, dor e humanidade.

12/27/2005

A História de uma alma

De uma vez por todas, em apenas um segundo estava tudo acabado.
As caras e bocas nunca mais as veria.
As lágrimas escorridas nas rosadas bochechas que vinham se reconfortar com a sua própria imagem,e a beleza que lhe fazia sorrir.
Os momentos passados, as confidências contidas que eu apenas poderia ouvir,pois um dia aprendi a falar a linguagem dos sentimentos.
Dos dedos que tantas vezes tentaram me atravessar e da raiva que tantas vezes tentou me romper.
Das memórias em mim guardadas, penso que abrigo agora algo a mais, que não faz parte de mim mas em mim se alojou.
E em apenas um segundo as manchas se espalham pelo quarto, manchando-me com o que eu gostaria de dizer um vermelho vivo.
Se dizem que os espelhos guardam a alma, é nesse momento que ela se liberta, e vai para muito além do que poderíamos sonhar como ideal.
E em mil cacos,se perdem assim os segredos há muito confidenciados de Tia Loretta.

Próxima premissa: "Uma estrada sem fim"

12/23/2005

A Sombra de um segredo

Desculpa a demora pra postar, falta de criatividade é um problema sério.
Bem vindos à nossa rodada de premissas!
Premissa da vez: "O segredo da tia Loretta"


Dentro da casa toda apagada pode-se ouvir apenas os passos silenciosos que invadiam, com enorme calma e lentidão, a casa que antes dormia como todas as outras da sua rua.
Agora, com um pouco mais de atenção e um bom ouvido pode-se ouvir também o coração que saía pela boca da mulher que habitava sozinha aquela casa. Com uma proporção exata, os passos se aproximavam assim como as batidas fortaleciam.
A porta do quarto abre; ninguém na cama.
Apenas uma sombra no quarto, que se aproxima cada vez mais de onde estava o corpo. O suspense emudece os passos, as batidas por conseqüência.
- Pode aparecer, eu sei que você está aqui. – Diz a sombra, lançando palavras ao vento, que buscam o receptor.
- E eu sabia que você viria, assim como a polícia. – Diz o vento, ou o receptor. As palavras atingiram-na, sendo comprovado por uma preocupação artificial que transbordava de sua voz.
- A polícia sempre se esquece, seja por suborno ou por incapacidade, vão esquecer você. E aquele guarda que estava lá fora não pode mais ajudar.
- Por que está fazendo isso?
Silêncio. A sombra puxa uma pistola de sua escuridão, ela atrai toda a luz que existe naquele quarto, e faz ela reluzir através da sua composição metálica. Como um grande paradoxo: a sombra usa da luz. E um grande baque faz se ouvir por sobre tudo.
Pondo um fim nas batidas.
- Porque eu não gosto de segredos, Tia Loretta. Mãe.

Próxima premissa: "O espelho"
Boa sorte, seja quem for.

12/16/2005

Ele merece!

Bom, gostaria de pedir desculpas por interromper a segunda rodada de premissas, mas é necessário postar essas fotos.

Aplausos para Pedro Rennó Marinho na apresentação da Artemúsica!!


É isso aí, um chapéu para cada música e ele merece!!

Que retornem as premissas.

Beijo beijo!!