Quando eu parei de gostar de futebol
Passou padaria, barbeiro barbado, menino jogando pelada; passou posto de gasolina, casa de pobre, casa de padre, três umbrais sem casa, uma casa grande sem jardim, muitos jardins sem menino.
Quem passava era eu, e o tempo não passava: corria. Correr muito, correr para comprar bola. Depois - de inventar historia, esconder bola, mostrar bola pra uns dois, sujar de barro, cortar a boca, mentir briga (com alguma sorte, arranjar briga) - que se preocupasse quem tivesse bola nova. Bola de capotão.
No pé do morro da antena, Jomael. Soco, soco, chão. Tiro? Jomael foi gastar os meus treze dinheiros.
Deitado, passou o dia, passou o tempo, passou o mundo. Passou minha velha vó, magra e sem treze dinheiros, subindo o Morro da Antena. Tia Mocinha pega o braço e levanta o menino sem vó.
Subindo o Morro da Antena, eu só quero apanhar outra surra.
Fui carregar a vovó. Sozinhos: meu pai, uns outros, Jomael e o homem que fazia bolas e bom preço.
Não começou a chover. O Jomael nunca me devolveu o dinheiro. A Tia Mocinha não se casou. Eu não deixei de sorrir. Saudade? Tiro.


